segunda-feira, 7 de junho de 2010

Patadas flamencas - Carmem Amaya



Hoje acordei saudosa do flamenco. E não sabendo muito bem o que fazer com isso, resolvi assistir a um vídeo da Carmem Amaya.

O estilo de dançar de Carmem Amaya (1913-1963) personificava a alma do flamenco, e chegava a ser masculinizado se comparado ao flamenco de Corte, dos bailes, dos movimentos elegantes e estilizados dos shows que costumamos ver atualmente, com muita influência do balé clássico. Gostava de dançar de calças, algo não muito comum para as mulheres de sua época bailarem flamenco. Nas suas apresentações, a técnica era colocada a serviço da paixão pela arte, chegava a ficar fora de si e se descabelar e até perder as peinetas do penteado, possuída por "el duende", nome dado pelos flamencos a uma espécie de transe em que entra o bailarino quando põe toda a emoção ao pisar num tablado. Para atingir esse estado, infelizmente não existe técnica, dizem eles, ou se tem ou não se tem.

Para uma biografia mais completa ver aqui.

João Cabral de Melo Neto, em sua fase espanhola, escreveu sobre ela:

Carmem Amaya, de Triana

As vizinhas diziam todas:
"bendita madre, que bailadora!"

Então botaram-me na escola:
era sevilhanas a toda hora.

Sevilhanas são para as damas,
para as niñas bien, não têm chama.

Aprendem-nas para na Feira
dançá-las entre si nas casetas.

Dançá-las dentro das famílias
como na Feira de Abril, em Sevilha.

"Nunca pensei em ser dama, não:
pois toquei fogo na lição."

Dançar não é coisa aprendida,
mas o aprender-se cada dia.

Assim é que entendo a lição;
sabê-la, mas segui-la, não.

Fugir do que ela faz de gesso,
dançá-la, mas sempre do avesso.

Tinha então de ganhar a vida,
e como eu, mais de mil havia.

Onde ir buscar esse sotaque
que entre dez mil me destacasse

e fizesse dizer: - Eis a Amaya,
eis seu bailado, vivo e em chaga."

"Fui numa tarde à Maestranza,
vi Pepe Luís (toureio e dança)

com ele aprendi que a morte
é que faz o sotaque mais forte,

e que não traz mal a quem a toque:
pois raro acede a quem a invoque.

Por isso, que pus no baile
a morte e seu arrepiar-se.

Supersticiosa, sou cigana,
vivo muito bem com a tal dama:

Ela faz mais denso o meu gesto
e só virá em meu dia certo."

terça-feira, 1 de junho de 2010

Como seria a sua dança se...



Como seria a sua dança se você fosse pra galera quase todos os dias? Sim, digo com isso dançar quase todos os dias com escalas em fins de semana e feriados, faça frio, com chuva ou calor.
Então pense naquela dança que vc preparou e escolheu a música com cuidado, estudou e preparou a coreo e teve dias e até semanas para escolher entre uma ou outra que já tinha preparado há tempos, pra dançar sazonalmente, num chazinho na escola aqui, num bazar beneficente ali, num espetáculo de final de ano num teatro, ou num aniversário familiar ou outro evento para o qual foi convidada por amigos. Pense na possibilidade de não poder repeti-la na semana seguinte no mesmo lugar, porque o público é assíduo e vai ver vc com a mesma roupa e a mesma música e a mesma coreo. É claro que vc poderá repeti-la... quando for dançar em outro lugar em que estiver na escala.
Estou falando obviamente das bailarinas profissionais que fazem dos shows e aulas o seu principal meio de vida, e não de bailarinas ou, segundo o sindicato, de dançarinas (caso no qual me enquadro) que têm outro trabalho como sustento principal e não dependem dos shows para pagar as contas. Não falo também de casos em que a pessoa tem os pais, o marido, ou namorado que as apóiam ou bancam integralmente. Falo é daquelas que se sustentam e têm outros a quem sustentar com a dança.
É claro que é uma escolha que requer coragem, porque viver de arte por aqui não é tarefa fácil. Além de ser uma "arte", como muitos falam, trata-se de um trabalho, como outro qualquer. Vamos ver se não é? A gente faz curso de soumbóti e aprende que uma das origens da DV está nas gawazee, ou nas ouled nails, que ficavam nas feiras abertas dançando, cantando, tocando snujs, muitas com os seios de fora, e sabe-se lá o que mais, dependendo do lugar, em troca de algumas moedas para comprar comida. OK, como é que a gente analisaria essas mulheres? Como poderíamos julgá-las, quer esteticamente, quer do ponto de vista artístico, quer do ponto de vista moral? É claro que a gente vê a iconografia e acha tudo lindo e idealizado, porque afinal de contas elas já estão no passado, mortinhas e enterradas, não é mesmo? Que bom pra elas, porque assim não correm o risco de encontrar suas imagens por aí expostas à falação alheia.
Tudo bem que é um risco que se corre. Quem está presente em qualquer tipo de mídia está sujeito análises e críticas diversas. Aí neguinho vai, pega um recorte do seu trabalho em 1900 e lá vai bolinha, quando desde a roupa até a coreo vc queria eliminar da face da terra, e "analisa a sua performance sob numerosos e profundos pontos de vista". E é claro que aquilo não corresponde mais ao seu trabalho atual, mas como pode o crítico saber se ele nunca te viu ao vivo, e se ele mora lá em Piraporinha da Serra e vc aqui na Barra Funda, né mesm? Mas o mais curioso, por algum inexplicável fenômeno artístico, as bailarinas de Piraporinha (ou localidade X em que residem os críticos) são todas uns primores, e só merecem sarrafo as que residem em Barra Funda, Brás, Bexiga, Cairo... lugares longínquos, enfim. Mas o que importa é criticar bem para criticar sempre. Depois, é tão bacana ser malvadinho, né? Pelo menos na 8a. série a gente pensava assim...
Mas o que me espanta é a falta de bom senso que gente do meio tem ao criticar. Gente, isso é uma coisa que eu jamais de ma vie faria: "Sabe, a fulana lá de Goiás, do Recife, ou do Paraná? Que horror, como dança mal, né?" E a tal fulana, que nem sabe da existência de quem falou dela, continua levando a sua vidinha de sempre, com os shows nacionais, e internacionais diga-se de passagem, as aulas, os works, a beleza dela, o charme dela (coisas que independem de biotipo, a pessoa pode ser gorda, magra, ou gostosa, ou mais ou menos e ter tudo isso, portanto não vale usar seu biotipo para descontar nos outros os próprios recalques), enfim, tudo o que o Mercado atual exige e a pessoa que criticou não teve nem nunca terá. Não porque não possa fazê-lo, mas porque não se empenha nisso o suficiente, e porque esse não é o seu TRABALHO, e no fundo tem inveja de quem o faz. Fica tão claro! A pessoa criticada pode até quem sabe ser sua companheira de lado num work internacional qualquer da vida. Esse mundo é tao pequeno!
Gente, se pra afogar minhas mágoas de achar que não tenho o perfil, nem o biotipo, nem o profissionalismo, nem a técnica de mil e poucas pessoas, teria desistido de dançar há muito. Adianta eu ficar falando mal de tudo quanto não me agrada por aí só porque o outro não é o meu espelho ou porque não compreendo as razões do trabalho alheio, por desconhecimento, imaturidade ou sei lá por que mais?
Tenho em mente que tomei essa opção há muito tempo, a de não ir pra galera geral. Poderia muito bem tê-lo feito, mas tomei outro rumo, e ninguém tem culpa pelo fato de eu não estar sob holofotes sete dias da semana.
Eu ou você, que temos um trabalho em que o fazemos sentadinhas, em escritório, em casa, ou nas firmas da vida, podemos até trabalhar em condições adversas, por mais que saiamos a campo vez ou outra, levantemos da mesa vez ou outra, trata-se de desk job. Podemos também tomar nosso analgésico e dar um tombadinha na mesa, que receberemos até olhares caridosos dos colegas. "Tadinha, não está bem".
Há bares que suspendem por tempo indeterminado a bailarina se ela precisar faltar e não arrumar uma substituta. Pois então elas têm de dançar com cólicas mesmo senão quiserem perder o emprego. Claro que ninguém quer saber dos bastidores, a gente quer mais é que os artistas brilhem, não é mesmo? Se a gente parar de olhar nosso umbiguinho e mirar com realismo esse trabalho não vai ter coragem de sair por aí malhando os outros, não vai mesmo. É fácil falar mal quando não se tem a manha de encarar esse batente, o da "arte" full time.

Por isso esse texto é uma homenagem pras minas que vão pra galera de segunda a domingo. Em bares, danceterias, casas noturnas, feiras livres, de promoções, em teatros, cafés, com garçons andando em torno, gente jantando, gente apreciando, aplaudindo, nem ligando, se divertindo, sonhando, curtindo...
E até mesmo para aqueles de quem eu não curta tanto assim o trabalho por variados motivos. Esses também merecem todo o meu respeito.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Minhas sazonais e curtas incursões pelo balé clássico




A primeira vez foi há mais de dez anos. Certo dia , durante um ensaio do grupo de jazz, nosso professor e coreógrafo, o Daioner Romero (que eu não sei por onde anda) olhou pra nós e disse assim: Vocês estão todas tortas. Cruzes, e juro que não é por culpa minha! Mas vou fazer tomar uma providência. Vou chamar um amigo meu que é professor de clássico para pegar uma hora do ensaio e dar uma "acertada" em vocês. Eu fiquei ansiosa, que o balé sempre foi um sonho dourado e distante pra mim. Sou capaz de chorar até hoje até em apresentação de baby class! Pois durante a tal aula o professor dava algumas rotinas, barra, deslocamentos, posturas etc. e quando acabava aquela hora e faltavam ainda 3 horas de ensaio, eu pensava. "Que pena... por mim poderia seguir todo o tempo que faltava com essa aula que eu nem sentia o tempo passar.". As meninas do jazz puro, dava graças a deus: "Acho lindo balé clássico, mas não via a hora de acabar essa aula. Essas músicas são devagar demais pra mim."
Adorava aqueles momentos clássicos dentro do ensaio do jazz, só que o professor ia dando as aulas, não explicava o porquê de nada, e eu e as meninas também iamos fazendo a coisa e pronto. Eu sinceramente não parava para "pensar", simplesmente ia fazendo o que ele pedia, o que quer dizer que não tinha uma consciência precisa do movimento que estava executando.

Foi-se o professor de clássico depois que nosso coreógrafo decidiu que já estávamos mais aprumadas. E eu esqueci do assunto, com tantas atividades que tinha para fazer.
Dia desses soube que teria balé clássico para dultos na academia que frequento, mas como é um curso pago à parte, dei uma espiadinha na aula e deixei pra lá. Se eu fosse uma rica, gastaria todos os meus tostões fazendo aulas de dança de todo tipo. Encontrei com a professora nos corredores e ela me propôs que eu fizesse umas duas aulas free, para conhecer o trabalho, já que tinha tanto interesse em dança e tals. Minha surpresa foi imensa, porque na faculdade de dança ela teve cursos com outro tipo de abordagem ligados a teóricos da reeducação do movimento, eutonia, Laban e uma linha parecida com a do Ivaldo Bertazzo. Então ela explicava os movimentos e o porquê, que grupo muscular estaria envolvido e consequências, etc. parava para massagear os pés dos alunos, coisa que eu nem cismava ter em uma aula de clássico, e claro deslocamentos de centro, barras, saltinhos, ou seja, tudo também do "normal". Ok, mas não vou deixar as aulas de DV, ainda mais estando cada vez mais comprometida, fiz tudo o que há pouco tempo falei que não ia fazer: estou dando aulas, tirei DRT, ainda bem que a gente muda de opinião. Na verdade, isso tudo para mim era como a fábula da raposa e das uvas. Desdenhava, mas queria comprar. E estou muito em paz por ter tomado essa decisão. Agora dá para seguir em frente com mais convicção.
Mas voltando ao caso clássico, desejaria que todos que trabalham com dança de alguma forma pudessem ter acesso às aulas de clássico com essa abordagem de conciência corporal. O curso embora caro vale muito a pena. Espero poder fazê-lo em um momento mais abonado.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Benefícios do Body Balance e reflexões sobre mania de perfeição



Após mais ou menos um ano é que fui perceber os benefícios dessa aula, que passei a fazer pelo menos uma vez por semana, para não abandonar por completo os exercícios físicos na academia. O Body Balance é uma aula de uma hora que mescla movimentos de tai chi chuan, yoga e pilates. A trilha sonora é bem interessante e vai desde new age, rock a baladinhas pop com influência de black music, o que dá um ânimo para a gente se manter naquelas posições a princípio esdrúxulas, mas que depois vai entendendo a mecânica e que grupo muscular é trabalhado. Creio que a tônica do programa está nos exercícios de yoga e pilates, que trabalham flexibilidade em um grupo muscular e ao mesmo tempo força em outro. A impressão que dá é que saio das aulas mais ereta com o pescoço mais alongado (meu sonho de consumo é ter um pescoço mais elegante) e mais leve.
Essa aula faz parte de um pacote que as academias compram de aulas prontas idealizadas por um grupo americano (ou canadense), que apresenta essa e outras modalidades de exercícios. Cada programa dura três meses, e depois a sequência é refeita com diferentes exercícios. Os professores têm treinamento, e cada lançamento de uma série nova tem uma espécie de festinha, com a sala enfeitada e mesinha com frutas e suco após a aula, coisa de americano, que fazem de tudo um evento, um show. Mas é animado. Nos lançamentos, em geral a gente vê pessoas que nunca fizeram, e depois nunca mais farão a aula, mas que vão por causa da muvuca. Nas semana posterior tudo volta ao normal e as aulas seguem seu curso tranquilamente.
Já ouvi algumas pessoas falarem mal do Balance: uma disse que não fazia porque já tinha feito yoga e no Balance não se para muito tempo nas posições, outra menina que fez apenas uma aula disse que não dava pra aprender as posições, que ela já tinha feito yoga. Curioso é que para mim o tempo que a gente fica parece durar uma eternidade e olha que não sou assim tão fraquinha. A aula é dinâmica, o propósito é outro. Dá pra gente tirar dúvidas com o professor durante a aula, e eles sempre nos corrigem.
Pensei sobre a mania de perfeição que às vezes nos toma. Gostaria de ter tempo de fazer uma aula só de pilates, outra aula só de yoga, outra de jazz, etc. etc. Se fosse pensar "se não puder fazer todas, então nenhuma outra me serve", acabaria não fazendo nada.
Na dança também não é diferente, a mania de perfeição nos paralisa. Nada contra buscar a excelência, mas fazer o melhor possível dentro do que é possível para o próprio corpo.
Recomendo o Balance para quem dança, pois é uma ótima ferramenta, e além de melhorar flexibilidade e força muscular, tem posições esteticamente agradáveis até inspiradoras para a dança mesmo, seja qual for a modalidade que se pratique.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A prática faz o monge

Depois de praticamente dois meses sem fazer aulas e indo com pouca frequência à academia, deu pra perceber como podemos sim, perder alongamento, agilidade, memória etc. Essas esporádicas férias, inclusive dos treinos em casa, da dança me fazem refletir no quanto a prática faz sim diferença. Mais vale fazer uma aula por semana na correria, meio cansada, fugida dos afazeres domésticos, trabalho, filho, marido e cachorros do que fazer aula nenhuma com a ilusão de que estou descansando um pouquinho e que isso não fará diferença quando eu resolver voltar. Quando volto às aulas reparo que no fundo dou à dança toda a importância do mundo.
Outro dilema que não sei se acorre a muitas praticantes não profissionais: faço aulas só de DV, fora outras modalidades, há no mínimo 6 anos. Tenho vontade de assumir alguma responsabilidade em relação à dança, fazer uma turma avançada, formação pra professora, atender ao convite de uma amiga e passar algum conhecimento que adquiri pra umas amigas dela, uma vez que a minha prof foi pro Líbano, voltou, saiu da escola e agora eu que estava toda acomodada, terei de tomar uma atitude.
Pra não parar, faço aulas com a prof. que veio substituí-la, e que tem um trabalho respeitado apesar de muito jovem.
Ao mesmo tempo, olho todas aquelas roupas de apresentação das quais não quero me desfazer de jeito nenhum. Vou dançar novamente com elas? Aonde? Procurarei trabalho em algum restaurante? Embora me ache bonitona ainda, o povo quererá me assistir se já não sou tão jovem quanto a maioria das meninas do mercado?
Acho que o foco no papel de mãe em tempo integral tomo o lugar da bailarina. E penso que dei um brake por muito muito tempo de dançar mais, assim como parei de escrever. Por isso saem esses textos truncados, escritos às pressas, sem releitura, entre uma solicitação e outra, com vários erros de ortografia e repetição de palavras. É uma constatação, não estou reclamando da maternidade. Foi uma opção e quero fazer o negócio direito, e acho que na maioria das vezes consigo.
Sabem aquela escritora ganhadora de Nobel que escreveu sobre a condição da mulher, a Doris Lessing? Ela abandonou família e dois filhos pequenos porque sabia que não ia conseguir produzir o que tinha de escrever tocando uma família direito, muito menos na época em que vivia. Muito homem faz isso e ninguém dá a menor pelota, acha normal.
Entendo-a perfeitamente. Foi corajosa e fez o que tinha de ser feito.
Não faria o mesmo porque sinto que sou mais mãe do que qualquer outra coisa. E a bailarina para onde irá? E a pessoa que escreve, então?
Esses questionamentos surgiram da aula de véus ao notar que perdi por segundos a consciência corporal. Achava que estava realizando um tipo de movimento com os braços ao aprender um movimento novo, mas na verdade o que fazia era outra coisa...
Tomei isso como positivo, um desafio. Parece que estava tirando uma longa soneca e de repente acordei.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dançar exige exclusividade, ou não?

Dançar combina com trabalhar fora? Desde que não pude fazer mais meus horários por deixar de trabalhar em casa, não tive tempo de me dedicar tanto à dança, ensaiar, pesquisar coisas novas, estudar, montar coreografias. Como disse para a minha prof: "Não dá para fazer amostra na aula, estou zoada". O que para dançar quer dizer pouca energia, o que determina a fluência e pulsação dos movimentos, alongamento comprometido, músculos tensos e paradoxalmente flácidos, sem pique para estudar novidades, nem tempo para a academia, o que faz uma grande diferença, principalmente aos 40 e poucos.
Meu HD cerebral e tempo útil ocupado com coisas do lar e trabalho... como me dá nos nervos, não ter tempo suficiente para me dedicar às coisas da dança. Posso deixar de ir ao cinema, de ver mostras de arte, mas da dança eu não desisto, embora há tempos não veja nada que não seja DV, nem o balé da cidade fui ver. O que me valeu muito foi a primeira apresentação da minha filha no balé. A prof dela montou uma bonita e criativa coreo sobre o chorinho Odeon, de Ernesto Nazareth. As meninas dançaram com acessórios e mostraram uma desenvoltura impressionante para baby class. Isso prova que a filha é minha mesmo. Foi lindinha a danada, superconcentrada, e no improviso de agradecimentos mostrou-se graciosa, feliz, espontânea. Um senso de responsabilidade precoce ao ficar firme até as fotos, embora cansada, para desabar de sono no carro, durante a volta. Observo-a curiosa a fim de garantir que essa vontade parta dela, sem pressão da minha parte, somente o estímulo quando necessário.
Chego a ficar quase feliz toda vez que saio de um emprego e penso: agora trabalhando em casa poderei me dedicar mais à dança. O que em parte é verdade, é também equívoco, pois em casa se trabalha mais. Quando trabalho fora tenho a nítida impressão de que estou lá para descansar, pois o trabalho mais a administração da casa in loco requer tanta energia!
Como disse antes, estava triste porém quase feliz por ter sido descadeirada do último trabalho, mas outra editora já me ligou, o mercado editorial está fervilhando louco por mão de obra para a qual não tenha de pagar direitos trabalhistas... Dai fiquei feliz, mas quase triste de novo.
Mas já decidi dançar no fim do ano zoada mesmo. Que Terpsícore seja compreensiva me ajude a superar a falta de dedicação que normalmente tenho.
Oh, my!, sinto que estou queixosa e cansada. É fim de ano, sei, e queria férias, mesmo sem ter sequer um emprego decente...

sábado, 26 de setembro de 2009

Ainda a polêmica

Estou meio atrasada com o assunto, eu sei. Momentos de desânimo e desgosto toda vez que passava por esse blog abandonado. Com trabalho em tempo integral, freelas, casa para administrar e filhos (minha filha humana e meus cachorros) para dar atenção, não me deixavam nenhum tempo para blogar nem escrever nada nestes últimos meses. Quando deitava não tinha nem coragem de dizer “Jesus me abana”. A frase deve ser conhecida geral e talvez fazer parte de alguma novela, que eu não sei qual é, porque me confesso uma alienada para atualidades pop nacionais. Só leio notícias cabeçonas, política nacional e internacional, ciências e eventualmente notícias bizarras sobre sobre alguma celebridade que não interessam a ninguém. Sou nerd assumida, rsrs. Pois não tive nem tempo de responder a um e-mail que a Lulu Sabongi me enviou (e creio que a várias ou a todas as alunas da escola de que ela é dona e na qual faço aulas). Li a missiva via e-email e fiquei bege num primeiro momento, indignada num segundo e cautelosa num terceiro.
É claro que não é lá muito confortável falar sobre um assunto que diretamente não me diz respeito, mas o caso foi aberto a público pela própria protagonista, por isso creio que o que ela menos queria era abafar o caso. O que deve representar para a pessoa um lugar que ela viu nascer, trabalhou juntamente com outras pessoas para construir e da qual de repente se vê banida?
O que é profundamente lamentável nesse caso, mais do que tudo no meu ponto de vista, é que um lugar que representou o sonho na vida de muita gente tenha se tornado palco para um episódio talvez final e triste para uma história tão bonita. Será que eles (o ex-casal) têm noção do que a Casa de Chá representou para tanta gente? O sustento de várias famílias de pessoas que ali trabalharam, momentos de encantamento e beleza; para pessoas que, como eu, conhecem e frequentam o lugar desde os tempos da faculdade, e bota tempo nisso... A realização dos sonhos de tantas moças e mulheres que lá se tornaram bailarinas, hoje com um trabalho consistente e reconhecido. Para mim também a escola da Casa de chá foi muitas vezes refúgio para os momentos de estresse de um dia de trabalho difícil, do trânsito, das enxaquecas. Quando deitava nas almofadas fofas para relaxar antes de começar as aulas, ficava olhando para os tecidos leves que adornavam o teto e sentia que ali era o lugar que eu realmente devia estar naquele momento, transportava-me para um mundo de leveza e harmonia, completados depois pelas aulas, que melhoravam até mesmo meus enjoos da gravidez.
Então a gente via a Lulu se apresentando ora na casa, ora nos vídeos didáticos. Para mim ela era uma personagem das Mil e uma noites, dançando era, e é, um ser fora de padrões estabelecidos para este ou aquele conceito de dança. Em aulas, das poucas que fiz com ela, devido às suas muitas viagens internacionais, aprendia em um dia, movimentos que demorava meses para aprender de outra forma, de repente ela dava uma simples dica e como num passe de mágica, “puf”, o movimento saía. “Ah, mas se eu soubesse que era assim tão simples...” Isso era a didática dela, um dom de ensinar...
O momento em que passei a ver com cautela o episódio de ela ter sido, de certa forma, “demitida” da Casa que ajudou a construir, me deu impressão de ser um assunto muito pessoal, coisa de casal, lance de família que trabalha junto nos negócios e acaba misturando tudo, sentimento, business, whatever...
No entanto, já que assunto é publico no meio DV, que é uma arte que pratico há anos, embora não trabalhe com ela, e talvez por isso mesmo me sinta à vontade para comentar, achei importante expor minha opinião. A gente lê tanta coisa... de pessoas que nem sequer conhecem de um modo mais próximo, vejam que não disse íntimo, as pessoas envolvidas... Há pessoas que metem o pau na Casa de chá, nas bailarinas, na administração, na Lulu, no Jorge, por despeito ou por não concordarem mesmo com o método de trabalho deles. Ora, então que criem um lugar e o administrem conforme queiram; não gosta do jeito que a Lulu dança porque ela “dá muito giros”, como já li por aí? Ora, vá dançar melhor do que ela, com uma técnica que você aprove e tenha como boa e certa, como até já vi também acontecer. Só que em geral não é o que acontece. A galera adora falar mal de quem faz, mas fazer que é bom...
Independentemente de tudo o que já li sobre o caso, ela fez o que achou certo fazer, cada um reage aos revezes da vida a seu modo. Se ela chutou o pau da barraca, fez o que achou melhor. Se ele permaneceu na dele, fez o que achou certo fazer. Não cabe a mim julgar essas atitudes Quero mais é vê-la dançando, dando aulas, palestras, passando o conhecimento que tem. Outra coisa: também não acho que as bailarinas atuais da casa de chá sejam péssimas, careçam de técnica, porém na arte há muito de interpretação subjetiva e quase tudo depende do ponto de vista. Já vi gente que quer ser profissional de DV dizer que odeia folclore, e outras, como eu, que amam, mas não têm tempo de praticar, oh, a vida, apesar do reveses e polêmicas a vida continua...