Então estava em uma palestra da Lulu Sabongi sobre as bailarinas egípcias dos anos dourados, Taheya Carioca, Samia Gamal, Naima Akef, etc. uma delícia de tema, que a gente pode ver vinte vezes que nunca é demais. E a certa altura o assunto caiu na tradução das músicas. A opinião dela e de outras bailarinas era a de que quando se pedia para algum árabe que sabe português traduzir, elas continuavam não entendendo nada porque supostamente o português deles não era lá essas coisas. Estava ali uma brasileira de origem libanesa ou algo assim e que sabia a língua. Como faz tempo que não vou a palestras, esqueci como me comportar, e justo eu nerd, cdf, que sempre me irritava quando ouvia papinhos paralelos em aulas, etc. Quem te viu e quem te vê... daí perguntei rapidinho pra moça: O que quer dizer "Taht il shibback"? Aquele clássico cantado por vários cantores famosos, amado por várias bailarinas, que a Dina praticamente dubla quando dança. Então, o que quer dizer? Daí não só ela como várias pessoas na sala, que ouviram a minha pergunta, responderam “Debaixo da janela!”, como se querendo dizer: Por onde você esteve esse tempo todo, como assim não sabe?” Fiquei querendo responder pra essa pergunta (imaginária) que fiquei esse tempo todo me virando pra aprender a como ser uma mãe decente para uma criança novinha, mas isso não vinha absolutamente ao caso. Daí perguntei, mas o que acontece debaixo da janela? Mas aí a conversa paralela da Lulu também acabou e ela deu sequência ao assunto principal, então não pude saber o que rolava embaixo da janela.
No blog Yallah! descobri que o site El Ojo de Orus tem essa música traduzida para o espanhol, o que já é alguma coisa. Há algumas músicas postadas no Youtube, da Nancy Ajran ou de outros pops famosos com letras em inglês ou português, e na net também dá para achar versões em português das mais famosas como Habibi ia Aini, porém me pergunto se são confiáveis essas traduções. No Dança do ventre Brasil, há muuuitas traduções de várias letras.
Quando comecei a fazer aulas sinceramente não me preocupava muito com isso. Com o passar do tempo o compromisso aumenta e daí a necessidade de saber o que se está dançando. Às vezes as professoras dão alguma frase ou linhas gerais de uma música, também em geral passadas rapidamente por algum amigo árabe ou descendente.
Porque sinceramente, por mais bellynerd* que eu seja, dificilmente vou me dispor a aprender a língua, não vai rolar, pelo menos não nesta vida. Creio que não haja muita solução, a não ser arrumar um conhecido árabe ou descendente que não tenha um português lá essas coisas, pedir para ele “traduzir a música”, e tentar fazer uma versão com o resultado. Queria saber se as outras pessoas também se ligam nisso, ou se só vão dançando conforme a interpretação do que a melodia da música passa.
*Termo que vi e adorei e avisei qeu ia adotar, no blog da Samara Da dança além do corpo.
Descrição de meus estudos, reflexões e dúvidas acerca de assuntos dançantes, com eventuais ruídos literários...
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sexta-feira, 5 de junho de 2009
sábado, 2 de maio de 2009
O segredo do grão

Assisti semana passada a um filme que enfoca relações familiares e de amizade em uma família francesa de origem árabe. Tudo bem que é de 2007 e muitos já devem ter visto, mas minha natureza é lenta e depois que virei mãe fiquei mesmo desatualizada em relação à indústria cultural no mundo, pelo menos a adulta, ha, ha. Dirigido pelo tunisiano Abdellatif Kechiche, o filme é premiado com quatro Césars, uma espécie de Oscar francês. Sempre dei mais atenção ao que os supostos inteligentes franceses pensam sobra as coisas do que os supostos inteligentes americanos, a não ser que esses americanos sejam, por exemplo, o George Clooney (que não sou tão bobinha assim...), o Robert Altman ou o Noah Chomsky, e mais recentemente o Obama. Fui doutrinada a pensar assim na faculdade e as evidências não me levaram até hoje a deduzir o contrário. Tenho preconceito contra o star sistem e a mídia estadunidense, mas é claaaaro que se acontecesse um milagre comigo semelhante ao que ocorreu com a escritora do Harry Poter me venderia rapidinho. Aquela mulher é testemunha de que milagres existem, mas isso renderia outro post: sobre mães em dificuldades, etc. É impressionante a minha capacidade de divagar sobre outros assuntos que rondam o tema principal. Vamos voltar ao que interessa: Por que é legal quem faz DV assistir a O segredo do grão? Porque é bom tentar entender um pouco da cultura na qual se insere uma arte que praticamos, não é mesmo? O filme aborda alguns aspectos da vida dos imigrantes de origem árabe de classe média na França, primeiro a culinária (pensei que ia desvendar o segredo do preparo do famoso cuscuz marroquino, que acaba sendo praticamente uma personagem da história, tal a sua importância no enredo). Segundo, a música, ah, como é emocionante reconhecer algumas que são tocadas pelos músicos de verdade, idosos moradores do mesmo hotel e amigos do protagonista, um aposentado trabalhador das docas, cujo sonho é abrir um restaurante em um barco. Com certeza, ao assistirem ao filme, pessoas que sejam de alguma forma envolvidas com a cultura árabe também reconhecerão a maioria ou pelo menos algumas canções tocadas com instrumentos tradicionais. Terceiro, porque dá para perceber que as relações familiares, ainda que se deem em um país ocidental e em tempos atuais, ainda são permeadas de atitudes machistas. Quarto, a dança do ventre em si, ainda que apareça só no final do filme, de maneira despretensiosa e sem o glamour que cerca os shows a que estamos habituados, é dançada de forma visceral e usada como tentativa de instrumento de salvação. A história mostra personagens semelhantes a pessoas de carne e osso. Todas as emoções e dramaticidade que tentamos sentir nas canções (nós que não sabemos a língua árabe), estão lá: o amor, a mágoa, a raiva, solidão, tristeza, luxúria, solidariedade, alegria, impotência diante dos fatos. Filmado de maneira que em alguns momentos se assemelha a um documentário, o filme é comovente ao extremo, para os que se permitem ainda comover com as mazelas alheias, além das próprias nos dias de hoje.
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